
[OS OLHOS QUE SÃO SOMENTE MEUS]
Querido Jorge Alfredo, Cláudio, Ángel e amigos da lista,
Como não sou beligerante, evito embates de qualquer tipo. Da mesma maneira, que como possuo um espaço na
grande mídia, tento por lá expressar minhas idéias, com chance de alcançar um grupo maior de pessoas. Um privilégio,
uma prerrogativa, que tenho e, por isso mesmo, tento aproveitar bem. Mas instado, pela citação de Jorge, a
falar sobre Os Negativos, sinto-me muito à vontade para discordar do que o amigo diz sobre o filme e engrossar
o coro - segundo afirmação de Cláudio - do "professor" Geraldo Sarno, a quem, infelizmente, não tive o prazer
de ouvir falar sobre Os Negativos.
Pra começar, gosto demais do filme. Principalmente porque ele desmonta o conceito mais convencional de
documentário... Por exemplo, a idéia cobrada por Jorge de que outras vozes fossem ouvidas além da de Arlete Soares.
Não que isso seja bom ou ruim, mas não é necessário, já que resultaria apenas num outro filme e não
naquele ao qual assistimos. Vamos a ele, então.
Por partes:
O título: Os Negativos são de fato negativos, aqueles que Arlete foi buscar na Europa e os outros tantos que
ele reuniu de maneira a dar visibilidade àquele homem quase morto, que renasceu por sua própria obra, revigorou
com uma nova chance de expor o seu talento, a partir da Corrupio.
Mais que isso, "os negativos" são também aherança maior que o homem até quis doar para amiga nos anos de convívio feliz. São também aqueles que ele negouà nova fundação, temendo que depois de reunidos voltassem a se perder. Tudo nesta fase final do personagemVerger, evocado por Arlete, gira em torno do que representam estes negativos. Não consigo pensar num títulomais apropriado, até pelas possibilidades de outras leituras, até citadas por Jorge. Gosto - aí já uma observação particular - de títulos que dizem muito ao filme, mas não dizem muito antes da obra ser vista.
Títulos diretos cabem bem num texto jornalístico, não numa obra com pretensão artística, como é este filme.
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Documentário ou ficção: Uma das questões mais caras à realização de um documentário reside na discussão em
torno de como se apropriar do real, sem mudá-lo a partir da presença de uma câmera ligada, equipamentos de
captação de som, equipe a postos etc... Enfim, aquilo que desde Vertov somos provocados a pensar... Neste caso
de Os Negativos, a opção de Ángel é radical. Ele resolve abandonar uma possível malsucedida captação direta do
real, para recriar a realidade. Ele faz um filme de ficção, tendo como tema um assunto real, a partir de
histórias e personagens verídicos.
O que é então Os Negativos, documentário ou ficção? É um documental, porque registra fatos reais. Mas não é um
documentário na acepção mais ordinária. Este é um filme de ficção, porque simula um depoimento.
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Antes das pedras, explico para quem não percebeu, possivelmente, tomado pelo clima de festa de uma sessão
dispersiva: Este não é um filme que colhe um depoimento de Arlete Soares. Não. Arlete Soares topa ser atriz de
sua própria vida em comum com Verger. Ela grava à exaustão, durante dias seguidos para que surgisse aquela fala
de 50 minutos, que quase ninguém contesta como muito rica.
Só que aquilo não é resultado de uma tarde, mas do esforço de dias de filmagem para encontrar, pela figura tão
magnética de Arlete - conforme Jorge ressalta - momentos de brilho capazes de suscitar as mais diversas
emoções. A montagem e a continuidade (Arlete grava com a mesma roupa e penteados) nos falseia com a sensação de
que se trata de uma fala colhida de uma só vez. Cinema é luz, é lanterna, mas é também mágica, uma magia que
reside na habilidade do truque de fazer os olhos verem aquilo que não aconteceu como se apresenta.
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Mas se é uma ficção, qual é a história? Não perceberam? É uma história de amor, com todas as suas fases. Começa
com o feliz encontro da jovem fotógrafa e seu mestre. Passa pela admiração, devoção e perspectiva de amor
eterno, como qualquer grande amor.
Este é o primeiro momento, o da comunhão absoluta. O amor sorriso da descoberta. Depois, Arlete nos conta como
Verger corresponde ao seu amor, o seu zelo para com ela, a sua preocupação em saber de tudo na vida da
aprendiz, até mesmo do seu domingo.
Parte em seguida, para nos mostrar a sua dedicação a este amor. Como ela vai cultivando este sentimento, não
medindo esforços para recuperar os negativos - sempre eles - perdidos do mestre, reuni-los e depois ajudar no
milagre da ressurreição de Verger, com a publicação de sua obra, fundação de uma casa para abrigá-la e uma
editora para publicá-la. Este é o tempo do casamento.
Um casamento, fruto do amor, que vai começar a apresentar desgastes com o tempo, como qualquer outro amor. Vem
a primeira traição: "o livro com os franceses". Segue a fase dos segredos, das reservas que Verger começa a
fazer em relação à personagem central.
A seguir vem a fase do litígio. Primeiro com a brusca separação, depois com a devida transformação daquilo que
outrora era um amor, num sentimento de rusga. É quando surgem as questões de natureza financeira, que podem
acabar em questão judicial, como acontece com os casos de divórcio.
No fim, sobra a Arlete apenas o esquecimento, o descuido da ausência, o vazio de ser esquecida até na hora do
sepultamento do antigo mestre, do antigo amor.
Vem-me à cabeça a seguinte pergunta: Quem mais poderia contar esta história tão íntima, senão a própria Arlete?
A quem mais interessa, não a figura pública de Verger, mas o "mestre amado" de Arlete? Ele pertencia a ela,
assim como estas lembranças pertencem a ela. Generosamente Arlete se pôs a nos contar, suas lembranças, seu
amor, suas alegrias, suas decepções.
A meu ver não cabe qualquer outro depoimento para este filme, além da voz da própria Arlete. Porque aqui não se
discute Verger, nem sua obra... Basta lembrar que todas as fotos que aparecem no filme são de Arlete e não de
Verger. O gênio de Verger não está em julgamento... Esta não é uma história pública, mas uma memória privada,
que vem à público - repito - pela coragem de Arlete de se expor.
O único contraponto possível para o seu depoimento talvez fosse a palavra de Verger. Mas este não está mais
entre nós e talvez nem se dispusesse a falar e mais ainda a representar para a câmera o seu próprio sentimento,
como faz Arlete.
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Filme sem foco? A exposição acima explica porque este é um filme sem foco, como acredita Jorge Alfredo. O
diretor, a meu ver mais uma vez acertadamente, preferiu esconder a sua personagem. Esconder porque ela própria
já se expunha demais!! Esta mulher tão corajosa, magnética e falante poderia representar um perigo para ela
mesma. Ángel resolve retribuir a sua generosidade deixando-a à sombra, na penumbra da ausência de definição.
Sim! Não falta foco, falta DEFINIÇÃO. E isto não se dá por falha técnica, mas pelo esforço de proteger o rosto
e a imagem de quem está a se desnudar por palavras. Foi conseguido não com a falta de precisão da lente, mas
através do registro em vídeo e toda a sua refilmagem a partir de um monitor.
Olhando com cuidado - e a exibição naquela noite não permitia muito isto e a própria natureza do filme,
realizado para a TV e não para uma tela com aquelas dimensões - dá para se ver as linhas do monitor, onde foi
"recaptada" a cena antes gravada em vídeo.
Temos então o vídeo ao quadrado, uma proposital perda de definição da imagem, para dar lugar apenas à palavra.
Observe-se ainda, que esta imagem feia, cheia de ruído, é contraposta às imagens em película, aqueles pequenos
inserts em 35mm, que nos dão profundidade de campo e a alta definição de um filme de verdade para mostrar
detalhes. Detalhes que não são desprezíveis, como as tão reveladoras fotos, que comprovam a intimidade de
Arlete e Verger. As cartas e documentos citados, que dão substância a aquilo que a personagem nos conta.
Além de um uso funcional, no sentido narrativo, isto que foi injustamente chamado de "falta de foco" traz à
tona uma outra discussão de formato, ou suporte, conforme queiram. Um debate que encontra em Godard a sua mais
radical forma, a do diálogo possível ou não entre vídeo e cinema. Ou melhor, para atualizar os termos, entre o
digital e a película.
Com isto, Os Negativos me enche as medidas. Porque não contente da bela narrativa, que traz à tona, também se
põe a questionar a própria forma. Discutir textura, fazer cinema mesmo sendo vídeo digital, para ser veiculado
na TV. Um "luxo" que talvez só tenha se tornado possível, por conta de um orçamento, que permitiu ao autor não
apenas contar a sua história, mas também exercitar o pensar e a discussão cinematográfica.
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Para quem viu A Secretária de Hitler, um filme de um personagem só e outros exemplos de documentários como uma
só voz, não há surpresa na opção de Ángel. Surpreendente é a construção da montagem meticulosa, da
interferência e sobreposição digital não como um acessório, mas elemento vital do discurso.
Surpresa é Arlete, revelada em sua intimidade, mas não exposta. Seria fácil dar um close nos olhos dela e
alcançar a emoção pela pieguice, pela superexposição humana, insisto. Mas Ángel não foi atrás do cinema fácil.
Colocou imensos obstáculos e desafios, não talvez por sua vontade, mas pelo ímpeto natural da criação, a tal
construção autoral, que emerge das demandas, que às vezes só artista sente, mas que nos dão tanto prazer como
expectadores, ávidos por bom cinema.
No meu caso específico – com um repertório tão abarrotado de filmes – ávido por experiências que nos tragam
novidades, que exercitem e nos tirem do lugar comum. Este é um filme – e eu posso chama-lo assim, porque tem
trechos em película de cinema -, que não se acomoda. Uma obra simples, que busca esconder a sua sofisticação
das suas intenções, mas que é pretensiosa e não decepciona, como o sabor gratificante dos biscoitos finos.
Infelizmente, não a alcance do paladar de todos.
É isso que me coloca aqui na posição de “enólogo” tentando explicar porque este vinho é especial, para que
todos possam sentir o mesmo prazer ao experimentá-lo. Vejam de novo este filme, precisei assistir três vezes
para começar a entendê-lo, pretendo repetir mais ainda, especialmente depois de descobrir que ele melhora a
cada nova fruição.
Obrigado pela paciência dos que leram até aqui.
Meus sinceros parabéns a Ángel e meus respeitos a todos, que iniciaram este salutar debate!
Que ele continue - pois o filme merece -, já que esta é apenas a minha contribuição. “Os olhos que são somente
meus e não se compram”, só para evocar as idéias do “colega” Peter Buchka na sua leitura da obra de Wenders.
Que outros olhares cheguem para contestar e discutir.
João Carlos Sampaio, critico de cinema. Jornal A TARDE.
(Imagem: esbôço para affiche de
Oreste Lattaro)
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