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[O NOME DAS COISAS]
“Nomes e nomes, os nomes dos homens,
os nomes das pradarias, das paisagens, das cidades e tudo quanto foi criado,
nomes pátrios, nomes confortadores na aflição,
os nomes das coisas, criados junto com elas, criados antes dos deuses,
aqueles nomes que sempre ressuscitam com a santidade da palavra,
constantemente reencontrados por quem vele verdadeiramente,
o despertador e fundador divino!
Nunca mais poderá o poeta reivindicar tamanha dignidade,
e mais ainda, mesmo que fosse a derradeira, a essencial missão da poesia
exaltar os nomes das coisas,
sim,
mesmo que ela, na primeira vibração de seus momentos supremos,
tivesse conseguido deitar um olhar à fonte eternamente viva da língua,
sob cuja luz,
nas profundezas,
paira,
intacto e casto,
o verbo das coisas,
a pureza dos nomes no fundo do universo das coisas,
então a poesia talvez fosse capaz de redobrar a criação através da palavra,
porém não lograria reconverter a redobrada numa unidade,
não o lograria,
porque a inversão fictícia , o pressentimento, a beleza,
porque tudo quanto a define como poesia e a transforma em poesia
ocorrem exclusivamente na duplicação do mundo;
o mundo da língua e o das coisas permanecem separados,
dupla a pátria da palavra, dupla a pátria do homem,
duplo o abismo da essencialidade,
mas dupla também a castidade do ser,
e dessa forma, pela duplicação, transmudados em impudicícia, que,
igual a um renascimento sem nascimento,
impregna todo o pressentir tanto como toda a beleza
e traz em si o germe da destruição do mundo,
a impudicícia primigênia do ser, tão temida pela mãe;
impudico é o manto da poesia,
e jamais a poesia se tornará fundação,
jamais se despertará a poesia de seu jogo adivinhador,
jamais o poema chagará a ser oração, oração de verdade,
válida como sacrifício,
oração essa tão profundamente inerente ao genuíno nome das coisas
que para o orante, encerrada na palavra imoladora,
volte a cerrar-se a duplicação do mundo
e que, para ele, só para ele,
palavra e coisa constituam novamente uma unidade...”
A Morte de Virgílio, Hermann Broch, pág. 203 / Editora Nova Fronteira
Tradução de Herbert Caro
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2 comentarios:
Broch é maravilhoso. Esse livro é maravilhoso.
Broch te lo debo a ti, Cristina (la primera vez que supe de él fue en "dias felizes").
Sí, es realmente una maravilla.
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